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Mulher com Deficiência e Profissionais da Saúde: Uma Reflexão Importante!

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Olá! Há vários anos (eu tinha por volta de vinte anos, hoje tenho 35) passei por uma experiência bastante traumática, que me fez entender da pior forma possível a falta de preparo de alguns profissionais de saúde ao se deparar com um/a paciente com algum tipo de deficiência e, ao longo desses anos, conversando com amigos, descobri que episódios como o que passei, infelizmente, são ainda muito comuns.

Mulher com Deficiência e Profissionais da Saúde

Precisava fazer meus exames periódicos de saúde íntima e, embora não me agradasse nem um pouco a ideia de ser atendida por um ginecologista homem ele era o único na minha região que atendia pelo meu convênio da época e que tinha um consultório minimamente acessível.


Assim que fez o primeiro contato visual comigo, eu tive a impressão de que o médico achava que estava olhando para um ET, o que fez com que eu já me sentisse péssima e com uma vontade enorme de sair de lá, mas eu já meio que tinha me acostumado com esses olhares.

O fato de ter sido tão difícil achar esse médico e ainda por cima depender de alguém que deixou de fazer qualquer outra coisa pra me levar, acabaram me fazendo permanecer no consultório mesmo sabendo pelo olhar do médico que ele achava que “mulheres como eu não precisavam, nem tinham o direito de estar ali, aquele espaço era reservado para as mulheres ditas normais, pois essas sim, tinham direito a sua sexualidade.

Manual da Mulher com Deficiência

Expliquei a ele todo o transtorno que passava com a minha menstruação, as dores intensas antes e durante o período menstrual quase a ponto de me fazer desmaiar, o fato de que eu tinha receio de me relacionar com meu namorado sexualmente pois tinha muito medo de engravidar e sabia que pílulas anticoncepcionais aumentam o risco de trombose por ser paraplégica.


O médico me olhou surpreso e perguntou:

“ Você tem um namorado e gostaria de transar com ele”? - Sua pergunta soou como se eu tivesse dito o maior dos absurdos do mundo.

“Sim. ” É claro que eu queria. Eu tinha vinte anos e um monte de hormônios em ebulição.

“Bom, o que eu posso sugerir para você e que considero a opção mais segura é te passar um calmante para que você não sinta tanto as oscilações hormonais, assim você não vai sentir vontade de transar e não corre o risco de disseminar a sua deficiência pelo mundo. 

Você não quer ser mãe, né? É muito perigoso e não faz sentido. O problema da sua menstruação a gente pode resolver com uma histerectomia total, posso ligar agora mesmo para um amigo e agendar o procedimento.”


Confesso que o meu mundo caiu naquele momento: Ele era médico, tinha estudado para estar ali. Será que as coisas que eu, uma menina de vinte anos, desejava eram assim tão absurdas? Será que ele tinha razão?

Despertei completamente do meu torpor ao vê-lo pegar o telefone e ligar para o tal amigo que podia fazer o procedimento. Nesse momento, olhando em seus olhos, eu disse:

“Não, espera, ainda não posso marcar nada, é uma cirurgia, algo definitivo, preciso conversar com a minha mãe primeiro, quero outra opinião.”

“ Bom, essa é a forma que eu consigo te ajudar. Converse com a sua mãe, tenho certeza de que ela vai concordar que é o mais sensato a se fazer e aí a gente marca.”


Saí do consultório me sentindo péssima, meu mundo tinha realmente desabado, o médico não só tinha sugerido aquilo, como deu a entender que acreditava que minha mãe concordaria com ele. 

Fui para a fisioterapia e na tentativa de aliviar toda a minha raiva e desespero, acabei exagerando na força dos exercícios e inflamando meus dois ombros, era como se, de alguma forma, eu esperasse que a dor nos ombros pudesse me fazer esquecer da dor que eu estava sentindo por fora.

Já em casa, contei para minha mãe o que tinha acontecido enquanto chorava copiosamente. A reação dela foi de negar tudo o que ele havia dito e querer ir até lá falar um monte para ele e, quem sabe, até agredi-lo para que, talvez, ele entendesse o quanto ele tinha me ferido com sua atitude e suas palavras.


Hoje, mais madura, sei que ele foi agressivo, antiprofissional e um tremendo de um filho da mãe sem o mínimo de sensibilidade e tato, mas ainda não consigo evitar que algumas de suas palavras e atitudes ecoem na minha cabeça de vez em quando e tenham seus reflexos no meu dia-a-dia e na minha maneira de vivenciar a minha sexualidade.

Ao escrever esse relato, fico pensando em quantas meninas e mulheres com algum tipo de deficiência foram e ainda são desrespeitadas e desconsideradas ao procurar um serviço de saúde, exatamente como eu fui naquele dia. 

O que precisa ser feito para que sejamos vistas para além da nossa deficiência e tratadas com respeito?Até quando seremos tratadas sem o mínimo de dignidade pelas pessoas que deveriam zelar pela nossa saúde e bem-estar só pelo fato de sermos mulheres com deficiência?


Infelizmente eu estava sozinha no consultório e não tinha uma gravação ou testemunha para poder processá-lo, mas sei que isso era o mínimo que ele merecia, pois ninguém pode ser tratado da forma como eu fui aquele dia e só eu sei os reflexos disso.

Gostaria de encerrar deixando registrada a minha solidariedade e o meu respeito a todas as mulheres com algum tipo de deficiência que passaram por algo parecido (talvez até pior) e dizer que me coloco à disposição para escuta-las.

Tenho fé que, embora as coisas estejam evoluindo muito vagarosamente, em algum momento no futuro teremos garantido o nosso direito de um atendimento, ao menos, digno. Creio que juntas somos muito mais fortes, portanto, contem comigo.


Dica Importante do Território Deficiente

Você mulher com deficiência, não saia dessa postagem, sem antes adquirir aqui o e-book digital Manual da Mulher com Deficiência ele é na verdade uma extensão dessa postagem, uma obra realmente especial e com garantia de qualidade!

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Renata Gonçalves
Tenho Mielomeningocele nível lombar baixo, uma malformação congênita também conhecida como Espinha Bífida. Sou formada em Letras Português-Espanhol com formação em Preparação e Revisão de Textos.

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17 Comentários

  1. Por um atendimento mais humanizado e acolhedor para todos.

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    1. Sem dúvida, temos que lutar cada vez mais por isso pois só assim iremos mudar alguma coisa.

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  2. Um absurdo vc ter passado por isso!! Espero que tenha encontrado profissionais de verdade no seu caminho

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    1. Sim, é um absurdo e fico indignada de saber que, infelizmente, provavelmente não fui a única. Graças a Deus hoje eu encontrei uma médica que me respeita exatamente por quem eu sou e me respeita e acolhe.

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  3. 👏🏻👏🏻👏🏻essa luta é nossa

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    1. Sem dúvida, e não podemos desistir dela se quisermos ter um mundo mais inclusivo e melhor.

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  4. É isso ai pessoal, vamos continuar comentando e participando, sua opinião nos ajuda a pensar novos temas e assuntos do seu interesse!

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  5. Querida Renata, infelizmente existem seres humanos que não são humanizados. Peço gentilmente que delete toda fala desnecessária deste ser e siga sua vida com plenitude. Você mulher, pode ser e sentir o que quiser, não permita que ninguém diga o contrário. Bj.

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    1. Muito obrigado pelo carinho, com o tempo vamos amadurecendo e nos dando conta de que existem pessoas que não estão preparadas para lidar com o outro. Espero que a vida o ensine a ser um ser humano melhor como me ensinou a perceber que não é só porque ele é médico que está com a razão. Na verdade, ele é um poço de preconceitos.

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  6. Uma alerta super necessário para todos os profissionais da saúde!

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    1. Sem dúvida, enquanto profissionais de saúde eles precisam estar preparados para atender a todos os tipos de públicos, sem qualquer tipo de pré-julgamento.

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  7. Renata, parabéns pelo seu texto e por fortalecer a luta pela dignidade de todas as pessoas com deficiência, principalmente mulheres. Um absurdo cometido pelo profissional de saúde, absolutamente antiético. Todas as pessoas tem direito à sexualidade e a uma vida plena. Desconsidere tudo isso e seja feliz sempre.

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    1. Muito obrigado! Ainda existe um longo caminho para que algumas pessoas entendam que uma mulher com deficiência também tem direito a uma vida plena mas é exatamente por isso que considero tão importante falar sobre o assunto. Escrevo na esperança de que outras mulheres com deficiência não precisem passar por situações como essa.

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  8. Parabéns Rê! Trabalho maravilhoso e de conscientização.

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  9. Parabéns pelo texto e obrigado por compartilhar esse relato conosco.

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  10. Obrigado você por tanto, sempre!

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